Por uma escola sem crise. Pagamos agora ou pagaremos mais tarde.

Cultura de Segurança| Views: 139

Choque. Esta é a palavra que define a sensação dominante diante de tragédias em escolas como o massacre em Suzano. Quando um incidente envolve a perda da vida de crianças o pesar e a dor parecem maiores.

Nosso pensamento lógico quer entender as razões, as variáveis que fizeram com que aqueles jovens tenham cometido aquele crime tão brutal.

Muitos culpam os videogames violentos, outros culpam a deep web e seus fóruns de conversa em torno de temas relacionados a massacres similares, outros atribuem ao bullying sofrido anteriormente pelos criminosos.

Após não encontrar razões lógicas para alguém agir desta maneira classificamos em nossa mente o episódio como uma fatalidade, um ato fortuito, isolado.

Só que nada disso é isolado.

Este tipo de acontecimento faz parte do nosso contexto social atual, tomado por violência, relações familiares enfraquecidas e com adoecimento precoce de nossas crianças e adolescentes.

As distrações do mundo moderno estão afastando pais e filhos. As pessoas convivem lado a lado sem prestar atenção um ao outro. Cada um em sua tela.

A escola é apenas um reflexo triste da crise social da nossa vida diária.

As escolas brasileiras vivem atualmente uma ampla gama de crises com potencial para afetar a saúde física e mental, o ambiente de aprendizado e a segurança de estudantes e educadores.

Essas chamadas “crises” são causadas por eventos traumáticos que afetam gravemente a comunidade escolar e resultam em séria perturbação da sua capacidade de enfrentamento e resolução de problemas.

Tipicamente as crises nas escolas não são esperadas, são dramáticas em suas consequências, e muitas vezes envolvem ameaça à vida.

Uma crise pode causar uma mudança drástica e trágica no ambiente. Esta mudança normalmente é esmagadora e incontrolável, assim como assustadora. Ela cria um senso de desamparo, desesperança e vulnerabilidade, combinada com a sensação de insegurança.

A exposição constante a riscos desta sorte tem provadamente um grande potencial de causar mudanças no desenvolvimento cerebral e transtorno de stress pós-traumático. Estas circunstâncias afetam negativamente não apenas o futuro escolar destes alunos como o seu sucesso na vida (Anda et al., 2006; Lupien, McEwen, Gunnar, & Heim, 2009).

As crises nas escolas podem ter larga escala, como as que envolvem violência severa, situações com reféns, de infraestrutura, como desabamentos e incêndios ou mesmo climáticas como inundações por chuvas.

Elas também podem ser mais individualizadas como um acidente de transporte ou a morte inesperada de um estudante, por bala perdida na comunidade, ou suicídio, por exemplo.

Entre 2014 e 2019, apenas no estado de São Paulo, foram registrados 225.522 boletins de ocorrência em estabelecimentos educacionais (incluindo escolas pública, privadas, faculdades, cursinhos e cursos de idiomas), segundo reportagem do UOL em 18 de maio de 2019. Isso representa 117 crimes por dia.

Entre as infrações, há registros de furtos, homicídios, estupros, lesão corporal, apreensão irregular de arma de fogo, estelionato, injúria, calúnia, maus-tratos e até mesmo associação criminosa. Entre alguns crimes, estão atenuantes de intolerância, como homofobia, transfobia, racismo e preconceito religioso. Apenas 1% desses crimes tem o registro em flagrante. Destes registros, 16.073 foram por ameaças de violência.

Uma professora, colega de outra que foi agredida por um aluno, relatou ao UOL, sob anonimato, que “falar de violência dentro da escola, para todo professor, é considerado normal”. Ela atribui esta realidade à falta de acompanhamento de pais e de polícia nas escolas. “Não tem ronda escolar, não tem pais na porta da escola. Professor não separa nenhuma briga porque não pode colocar a mão no aluno. Nessa hora, nossa preocupação é não deixar ninguém filmar para não cair em grupo de WhatsApp”.

Um ex-professor da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, onde aconteceu o massacre, deu entrevista a uma emissora de TV. Ele contou que havia saído da escola por medo de ser agredido. O clima que predominava na escola já era de violência.

Ou seja, o massacre de Suzano não começou naquele fatídico dia. Ele é fruto de uma realidade de muito tempo que vem se agravando.

Quantas crianças e adolescentes, independente de classe social, encontram apoio e afeto em suas famílias?

Quando em nossa história soubemos de tantos casos de suicídios entre jovens e adolescentes?

Quantos adolescentes e jovens já vemos tomando medicamentos tarja preta para ansiedade, insônia, depressão? Sem falar nas bebidas alcóolicas e drogas.

Com certeza o massacre de Suzano ainda não terminou. As sequelas de todos que viveram de alguma forma aquela crise demorarão muito para ser curadas e para muitos não curará jamais.

A mãe de uma das vítimas, em reportagem da UOL de 25.05 pede que “algo precisa ser feito para que as crianças não queiram voltar para a escola como atiradores”.

Após o massacre em Suzano a procura pelo serviço de atendimento psicológico na cidade aumentou muito, mas a rede pública não consegue atender a demanda. Segundo uma mãe de duas alunas da escola e integrante da comissão de pais formada depois do massacre “muitos alunos estão bem problemáticos e não conseguem vir regularmente às aulas. Ficaram com problemas de saúde e não só psicológicos”.

Por isso eu defendo a necessidade urgente de implementação de gestão de crises nas escolas.

Isso significa mapear riscos, elaborar planos de mitigação, criar rotinas de segurança, preparar alunos, professores, funcionários, pais e comunidades a prevenir crises, a enfrentar situações de emergência quando a crise for inevitável e tornar mais fácil a retomada das atividades após a crise.

A chave da prevenção de crises e do desenvolvimento de um ambiente saudável de aprendizado nas escolas é o endereçamento de questões emocionais que provoquem mudanças de comportamento antes que os incidentes ganhem escala.

É certo que as crises continuarão a chegar às escolas. Por isso, para aumentar a segurança e a proteção da comunidade escolar é fundamental também que aprendamos om os incidentes passados e que essas lições aprendidas guiem nossos futuros esforços.

Ou pagamos agora pela prevenção de crises ou pagaremos muito mais caro depois.

Somente com organização, ferramentas adequadas e comprometimento de todos os envolvidos será possível ir mudando aos poucos esta situação na direção de uma escola segura, sem crise. 

Ana Flavia Bello Rodrigues

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